
Um homem voltava para casa depois de um dia inteiro de trabalho, estressado como sempre. Não via a hora de chegar em casa tomar um banho e cair na cama.
Foi quando um mendigo lhe parou e disse: "Se um dia me veres chorando, sorria".
Ele achou aquilo estranho e engraçado. Mas o mendigo continuou a falar, com o tom e postura de um profeta.
"Não pela minha dor, não pela conveniência desse ato, não porque tu achares engraçado,
mas sim, meu bom homem, pelo fato de que EU com toda minha sabedoria adquirida em anos de sofrimento.
EU que do fundo do asco e repugnância que sinto por mim mesmo.
Que tenho inúmeras marcas de agulha em meus braços.
Que já levei surras que deixaram cicatrizes e lembranças de hospitais.
Que raras vezes tenho um surto de lucidez como este.
Que já perdi tantas vezes o gosto de viver.
E que não espero mais vencer na vida.
Esse farrapo humano que mesmo depois de ser maltratado pelo mundo ainda vê alegria na vida. E mesmo diante de tanta desgraça ainda chora quando lembra como é divertido viver".
Depois disso ele começou a marchar em volta de um poste fazendo um som de trombeta com a boca.
"tom torom tomtom, bum bum"
Sentou-se no meio fio e ficou a sorrir sozinho.
O homem ate pensou em lhe dar algum dinheiro mas achou melhor não.
Ele chegou em casa, retomou as aulas de xadrez que ja havia começado a dar ao seu filho, colocou a menorzinha pra dormir contando a história de Ícaro e de como ele vôo ate o sol e fez amor com sua esposa dizendo o quanto a amava. E quando o silêncio tomou conta do seu mundo pode-se ver uma lágrima em um rosto sorridente.
Na mesma hora, em baixo de um viaduto, um sábio pedinte faz mais marcas em seu braço.